Diante de grandes desafios e acontecimentos que desestruturam, mas que são transpostos, é esperado que a pessoa que passou por eles seja chamada de forte. Ao mesmo tempo que essa fala vem como um elogio e reforço da capacidade de lidar com situações difíceis, pode também ocupar um outro lugar: o do vencedor que está sobrecarregado.
Há situações de vida em que a única opção que parece se ter é superá-las a qualquer custo, e nisso muitas pessoas que são chamadas de fortes costumam sentir certo incômodo. Aquele constantemente considerado forte pelos outros revela: “não queria ter que ser forte”. É como se essa designação tentasse encobrir de forma sutil todo o desgaste que está por trás de um desafio, como se não houvesse espaço para sentir o que também é doloroso. Nem sempre ser considerado forte é um elogio. Por outro lado, o ser forte tem também sua versão mais integrada e humanizada. Qual é a diferença de um para o outro? O que acontece é que costumamos confundir a força bruta e física com força psíquica.
Quando um desafio parece ser muito amedrontador e passa a impressão de que seremos devorados por ele, são grandes as chances de ativarmos um modo de luta mais primitivo (ou saímos correndo ou atacamos ferozmente). Em qualquer uma das opções, a reação é mais instintiva. A cada escolha de atacar e o ataque ser um sucesso, temos uma satisfação, mas junto vem um cansaço. Isso acontecendo repetidas vezes gera um peso, pois exige um esforço excessivo.
Já a força psíquica tem outro funcionamento. Ela consiste em ter a compreensão do que é genuinamente valioso para nós. A batalha a ser travada ainda exigirá certo esforço, mas se trata de um trabalho conjunto com o que já é sólido internamente. Uma luta mais instintiva é como uma briga para se conquistar algo que ainda não se tem, enquanto no outro tipo de luta é uma questão de reorganizar o que já está disponível. No entanto, a força instintiva pode ser o caminho para acessar a força psíquica e uma não exclui e nem é mais importante que a outra.
Essa força interior pode não estar tão nítida ou nem acreditamos que ela exista. Ela pode estar escondida no que sentimos intensamente e bloqueamos, naquilo que traz alegria e consideramos bobo, no que pensamos e não temos coragem de assumir e em vários outros lugares desconhecidos dentro de nós. Em momentos mais angustiantes podemos ter sonhos que nos apaziguam e nos mostram corajosos, enfrentando monstros, passando por batalhas e vencendo. O que pode não estar tão consciente encontra um jeito de se revelar. Basta estar atento.






